200 coisas para fazer no banco... Contas para pagar, ver se tinha dinheiro, quanto, como e onde, pagar o que desse, sacar um tanto para o bolso, essas coisas.
Bancos em greve. Melhor fazer tudo num pacote só. Pegar superfila uma vez só, não deixar vencer nada que ficasse para depois.
Então a porcaria da maquininha encrenca comigo e fica me pedindo uns tais números do cartão-chave (???). Cartão-chave? Para que isso agora? Não funciona tudo certo com a minha senha? Para que mudar de idéia no meio do caminho? Para que me pedir esses tais números que eu nem sei do que se trata?
Chuto a primeira vez. Chuto a segunda. Então lembrei...
- Aaahhhh... Cartão-chave, podes crer! Aquele cartãozinho porqueira, cheio de números, parece um calendariozinho de brinde da papelaria, e que eu nunca soube para que servia... Putz! Será que ele ainda existe? Por onde será que ele anda?
A máquina trava. Não aceita mais meus palpites... Aliás, nem me deixou tentar!!! Porque uma combinação de 2 números é finita... Chata, mas finita! Irritante, mas finita! E é relativamente simples de fazer... Um simples aplicar de alguns princípios da contagem, fatorial e arranjos simples. Tudo é uma questão de análise combinatória, de possibilidades. Algo besta, chato e irritante, mas possível. Se eu levar 2 segundos a cada tentativa – piiiii, piiiii – somados ao tempo de retorno da máquina a cada vez, quanto tempo será que eu preciso ficar aqui tentando? O que eu tenho para fazer depois? Será que dá para eu ficar aqui mais um pouquinho? Sou pé quente pacas, acho que acerto nas primeiras essa porcaria-de-senha-do-cartão-chave.
Não tive essa chance...
O muuundo foi bloqueado por normas de segurança antes que eu pudesse tentar. E saí do banco com cara de tacho... Um monte de contas sem pagar, nenhum puto no bolso, sem saber se eu tinha algum no banco... Aahhh, e aflita em imaginar se o tal do cartão cheio de numerozinhos ainda existia e, caso contrário, a quem reclamar estando todo mundo em greve...
Um pingo de calma e bom senso escorre gélida e suavemente por minha testa...
- Bom, se eu não conseguir pagar minhas contas antes que vençam, pago tudo em juízo, depois da greve vou cobrar a diferença do banco.
- Bom, se meu cartãozinho não funcionar mais sem a porcaria do outro cartãozinho dos numerozinhos e eu ficar sem um puto no bolso ou tiver que lavar pratos no restaurante, pego emprestado, depois da greve vou cobrar os prejuízos do banco.
O grilo falante começa a apitar...
- Dani, querida. Veja bem... Também é uma questão de probabilidade a complexa questão da fraude em bancos. Estratégias cada vez mais bem elaboradas, pessoas envolvidas cada vez com menos escrúpulos. Quando não é o banqueiro te roubando, é o seu cartão que é clonado. Isso é para te proteger, aumenta suas chances de segurança naquilo que deveria ser teu por direito.
- É, é... Eu sei. Mas já não basta eu ter que saber de cor a senha, eu ainda vou ter que carregar mais um cartão comigo? Porque decorar aquele monte de numerozinhos combinados e arranjados que nem um calendário de brinde da papelaria eu não decoro meeeesmo!
- É uma forma de evitar a fraude... De garantir que só você terá acesso a sua conta via caixa eletrônico.
- Não podia ser leitura de digitais?
- E se um ladrão corta e rouba seu dedo e acessa o caixa com seu cartão e seu dedo pendurado que nem um chaveiro?
- Ah é... Hummmm. Identificação da íris?
- Pior ainda! Dedo pelo menos você tem vinte... Já pensou um ladrão que rouba seu cartão e seu globo ocular, e vai ao caixa eletrônico carregando aquela bolinha aninhada entre as mãos?
- Leitura de voz! Leitura de voz! Leitura de voz! E sem direito a playback, sem direito à gravação! Só vale voz ao vivo! A-hammm..... Matei a pau agora! Nooosa, eu sou uma boa especialista em segurança de acesso ao caixa eletrônico de bancos em greve, hein! Falar ao vivo: “Sou eu aqui, porra! Eu sou eu, só eu posso usar meu cartão! Eu sou eu, pagar essa conta já. Super gêmeos, ativar”.
De repente, o grilo falante ficou mudo.
De repente, e eu já tinha chegado ao escritório.
De repente... E então eu percebi que ia ter que revirar a casa atrás do calendariozinho...
... nessa casa se ouve Programa Biotônico














